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Psicologia animal – O Homem e o Cão – Ajuste perfeito.

O homem e o cão: espécies de psicologias diferentes que se ajustam perfeitamente
Por Éder Galiza

 

Desde tempos remotos o homem e o cão convivem bem socialmente. Apesar de serem de espécies diferentes, passaram a compartilhar do mesmo espaço, e em grande parte das mesmas atividades diárias. Estes dois seres funcionam mentalmente em planos distintos, não apresentando dessa forma a mesma estrutura psíquica.

Então, o que faz esses seres se darem tão bem em sua convivência? O que faz viverem em função um do outro como membro de sua própria família, ou no caso do cão, matilha? O presente trabalho tem o intuito de descrever a psicologia que se passa tanto no humano como no cão. E revelar, a partir disso, qual lugar que cada um ocupa na vida do outro de forma real, e não de forma imaginada como muitos humanos acreditam. Para então esboçar uma possível explicação psicológica do motivo de partilharem tão bem do mesmo ambiente até os dias atuais.

É fácil chegar em uma casa, onde existe um cão, e perceber que  este não é um simples animal. Percebe-se facilmente que ele faz parte daquela família, como um integrante indispensável. Isto é dito até mesmo pelas próprias pessoas da casa. O cachorro ocupa então o lugar de um membro da família. Apesar de serem cachorros, apenas animais, dificilmente são tratados dessa maneira. O lugar especial que ocupam é um prestigio tão grande para os humanos, que estes os vêem não como animais, mas como seres da mesma espécie. Começa pelo nome que ganham, algo simbólico utilizado apenas pelos humanos. Logo após vem a personalidade que recebem que é um conjunto de forças internas que determinam o jeito de uma pessoa ser e se comportar. E por ultimo, a capacidade de poderem ter estados emocionais como humanos. Os cachorros passam a ser vistos como parentes próximos; passam a ocupar lugares ocupados funcionalmente por pessoas.

Não é difícil chegar em uma casa e escutar: – “o nome dele é TED, ele tem um temperamento calmo, mas se tirarem o que deseja, ele passa a odiar quem fez isso com ele . O TED é para mim como um irmão”.

Realmente os cães deixaram de ser meros animais, cachorros, para serem pessoas na visão humana. Mas será que é isso o que realmente acontece? Será que eles realmente vivem no mundo humano? Ou eles vivem no seu próprio mundo e os seres humanos acham erroneamente que eles adquiriram características humanas?

Será mostrado que o cão não deixou de ser um animal, e que em seu psiquismo ele continua um cão, mesmo que o humano o visualize como uma pessoa. E por mais que se tente humanizá-lo os cães continuam a viver em seu próprio mundo, o de um simples animal.

Psicologia Humana: o lugar que o cão ocupa no psiquismo do homem

Para a psicologia psicanalítica o homem é um ser em falta, e essa falta marca seu psiquismo e explica muito de seus comportamentos humanos. Desde bebê o ser humano nasce e vive em função de um outro que o cria, normalmente seus pais biológicos. Esse momento inicial de cuidados cria a possibilidade de o bebê viver um estado de completude diante desses criadores. É como se o bebê fosse a soma dele próprio mais os pais. Quando este bebê percebe que é um ser isolado, separado dos criadores, sente-se em um estado fulminante de angustia. É aí que se inscreve no seu psiquismo, que na verdade, ele é a soma dele mais uma falta. Uma espécie dele com um buraco.

Como defesa contra a sensação intolerável de angustia, por perceber-se em falta de algo, ele tende a procurar incessantemente por substitutos vivos ou imateriais para tamponar a hemorragia psíquica. Algo que é muito doloroso. O mundo passa a ser visto como uma fonte de objetos que podem tapar a dor psíquica e fazê-lo reviver aquela sensação inicial de plenitude.

Logo, as pessoas vivem no mundo com uma sensação interna de que algo sempre lhe falta. É como se nunca estivesse satisfeito, e por isso sempre busca mais e mais coisas do mundo.

O cão, um dos objetos do mundo, ajusta-se como algo para o ser humano que poderá tamponar sua falta angustiante. O cão então assume um lugar de tudo aquilo que falta para o ser humano. E é nesse instante que o ser humano o humaniza, transferindo lugares psíquicos seus para o cachorro. O cão então irá ocupar o lugar que pode ser de um bebê, de um irmão, de um amigo, ou até de um brinquedo. É esse o lugar que o cão ocupa na vida do ser humano. O cão, como um ser da espécie animal, passa por um processo de humanização e ganha todo aquele conjunto de características humanas: nome, personalidade e estado emocional.

Esse processo de quebra de passagem do mundo animal para o mundo humano na mente do homem não poderia ser chamado de desumanização, pois na verdade o cachorro não é humano. Um termo que expressaria melhor a situação, e criado aqui, poderia ser a desanimalização. Desanimalização é justamente um processo de não respeitar a espécie do cachorro e descaracterizá-lo com características do mundo humano.

Mas porque o cachorro continua neste meio, mesmo sendo descaracterizado? Por que o cachorro se mantém fiel às pessoas com quem convive? Será que é porque gostou de ser humanizado, ou porque sua psicologia canina se acopla perfeitamente ao lugar em que ele é colocado? É isso que será visto a seguir, ao se falar sobre a psicologia canina.

Psicologia Canina: o lugar que o homem ocupa no psiquismo canino

O cão como animal vive em um mundo prático. Onde não existem dúvidas ou meio termo. Sua vida é norteada por princípios simples e afirmativos de sua própria espécie. Para o cão a vida é de um jeito ou de outro, são extremos, par de opostos, não havendo espaço para o entre dois. Ou seja, ou um lugar é bom ou é ruim, não tendo espaço para o meio termo do “mais ou menos”. O psiquismo do cão gira em torno de viver apenas em dois lugares: o de líder de uma matilha ou de seguidor da matilha.

Estes dois lugares impressos no psiquismo do cão assumem a afirmação de que um ele tem que ocupar e o outro tem de ser ocupado por um outro cão ou outro ser. O lugar de líder é daquele que comanda, sempre por ordens, os seguidores. É aquele que diz a hora de continuar a caminhada, o de parar a caminhada, o de descansar, o de comer e beber, e o de dar continuidade a caminhada. O líder assume o posto de comandante que exige respeito, e para isso vive em alerta para corrigir atos inadequados dos seguidores. O líder é um posto que confere ao titular fazer tudo quando bem entender. É ele que defende o bando e ordena um ataque do bando ou não. Já o lugar de seguidor, o outro lugar psíquico impresso na mente do cão, é aquele que não deve se posicionar diante de nada, e sempre ficar à espera da ordem do líder. O seguidor não escolhe a hora de comer, não escolhe fazer o que bem entende, sempre espera por ordens. O seguidor tem a função de fazer tudo o que o líder diz, e nunca ataca nem um alvo sem ordens.

É assim que o cão vive, ou sendo um líder de matilha, ou sendo um seguidor da matilha. Entre os cães não tem uma melhor posição. Para eles só tem “ou eu sou isso ou aquilo”. Tem cães que já nascem com potencial para liderarem; já outros, nascem com potencial para seguirem. A psicologia canina é clara, se dentro da matilha não há líder um seguidor assume o posto e muda toda sua postura diante desta.

O homem ao se relacionar com um cão entra no mundo animal em um lugar específico para eles: ou sendo seu líder, ou sendo seu seguidor. E quando entra determina o lugar do cão nesse jogo de opostos. Justamente pelo lugar que ele irá assumir para o cão. O humano, na visão do cão, é um animal. O cão desumaniza o homem. No mundo canino o humano é um dos membros de sua matilha.

É fácil chegar em uma casa e olhar, a partir da psicologia canina, qual o lugar que o cão ocupa e qual lugar que o dono ocupa. É observado muitos casos de cães atacarem quem chega a uma casa, percebendo que ele ocupa um lugar de líder naquela casa. Em outros casos os cães latem como modo de apenas alertar o dono, e já se vê nesse caso que é um cachorro submisso, esperando a atitude do líder. Neste último caso o cachorro espera a ordem de atacar, ou de ficar quieto.

É aí que surge o impasse de se indagar como duas espécies de psicologias tão diferentes deram certo até hoje. E principalmente já sabendo, com o que já foi dito, que eles têm psicologias diferentes. Que eles se relacionam de maneiras diferentes em seu mundo mental. Esta tem sido a questão que se desdobrará daqui para frente, buscando uma possível explicação psicológica eficaz, que possa satisfazer o entendimento da relação: homem e cão.

Psicologias diferentes que se acoplam perfeitamente

No humano se vive psiquicamente o lugar da falta. Como já foi visto, existe no humano a sensação do vazio a ser preenchido. Já no cão vive-se  psiquicamente o lugar do par de opostos: o da liderança e o da submissão.

É aí que surge a resposta do motivo da bela relação homem e cão. O de um convívio firme e sólido. Pois é na tentativa do humano de preencher o lugar do vazio angustiante, que o cão assume o posto de alguém ou algo. E como consequência, gera-se no psiquismo do homem uma satisfação enorme. O cão surge como algo que diminuiu suas angustias. Isso leva o ser humano à sensação que sempre buscou ter, nem que seja por apenas alguns instantes do dia, o de plenitude, o de completude.

No cão, este processo de ser colocado em um lugar de valor para um humano, leva aquele ao encontro de possíveis substitutos de uma matilha, fazendo-o reviver sua genética animal e explorá-la ao máximo. O cão então se identifica com uma das funções que tem em seu próprio psiquismo (o de líder ou de seguidor) devido ao ser humano ter ocupado um dos lugares previamente. Logo, se o ser humano se coloca como líder, o cão passa a ser seguidor. Por outro lado, se o humano se coloca como seguidor o cão passa a ser o líder.

Cão e humano, nessa relação, experimentam e vivenciam em seus psiquismos encaixes perfeitos, de formas compactas e bem definidas, a um ponto de um não viver  sem o outro. A satisfação proporcionada a ambos é enorme, pois faz com que cada espécie viva seu mundo particular e fique em equilíbrio.

Apesar dessa relação se encaixar bem, isso não quer dizer que ela seja sempre harmoniosa. Pois há vários casos de existência de transtornos nessa relação.

Humano e cães : uma relação bem encaixada, mas nem sempre harmoniosa

Sabendo que apesar do lugar privilegiado que o humano ocupa no psiquismo canino, não quer dizer que sempre será uma relação harmoniosa. Pois como cão, este tem um conjunto de afazeres que o fazem justamente ser cão. E caso não seja cumprido, o cão pode ter problemas em sua relação com o humano.

O cão na sua vida comum gasta energia para buscar comida. É assim que vivem no meio natural. Quando colocados e adaptados à vida das pessoas eles não mais precisam do gasto de energia para buscar alimento, pois o recebem direto e sem esforço dos donos. Mas a energia surge no cão de qualquer forma, e seu acúmulo é tóxico, levando sempre a perturbar a relação com quem divide o espaço. Se o humano que convive com o cão não gasta essa energia, assim como estes animais gastavam em seu ambiente natural, tal energia se acumulará de forma ineficaz e fará surgir os problemas psíquicos. É a partir disso que o cachorro passa a ter problemas parecidos com o dos humanos, apresentando: obsessões, fobias, agressividade, etc. É enorme os casos de cães que apresentam problemas como: possessividade por algum objeto, fixação em alguma coisa, medo de algo ou de algumas situações, e até de cães que passaram a ser agressivos com os próprios donos. Isso não é normal.

Uma forma de se entender melhor o que ocorre com os cães é voltando o olhar para os humanos. Na psicologia humana a passagem do mundo selvagem para o mundo civilizado trouxe vários benefícios, mas também vários problemas. Nessa passagem o gasto de energia antes era livre e passou a ser ponderado. Isso gerou no homem um acúmulo de energia. Levando-o a diversos sintomas do cotidiano.

O acúmulo de energia no homem passou, com a entrada na civilização, a ser gasto de duas maneiras: uma de forma eficaz e outra de forma problemática. A primeira, gasta de forma produtiva, através do trabalho, dos esportes, das artes, e de outras atividades parecidas. Já a segunda maneira, passou a ser gasta de forma problemática, exteriorizando-se nos sintomas: histeria, obsessões, fobias, depressões, dentre outras.

Essa energia acumulada quando descarregava no corpo fazia surgir a histeria; quando nas ideias, surgiam as obsessões; quando projetada para algo no exterior, surgiam as fobias a algo; quando paralisavam, geravam as depressões, e assim por diante. A energia acumulada sempre encontrou uma maneira de surgir e nem sempre foi boa pra o homem.

Os cachorros podem apresentar, assim como os humanos, semelhantes formas de gastar a energia acumulada. De forma produtiva, como exemplos: uma companhia durante uma caminhada, ou realizando alguma atividade produtiva para o dono. Ou de forma ineficaz, como foi visto, gerando problemas comportamentais e perturbando a relação ali antes estável.

Conclusão

Os cães são realmente importantes na vida do homem. E os humanos da mesma forma são importantes na vida do cão. É uma importância recíproca. Apesar de terem psicologias diferentes, estas se encaixam muito bem ao se relacionarem. Mas, nem sempre humano e cão vivem uma relação harmoniosa. Quando as energias de cada um são satisfeitas de forma produtiva, ou seja, as energias acumuladas são gastas de forma eficaz, não há motivo para que não exista harmonia no meio em que vivem.

Tem que se chamar a atenção para o homem como papel principal em manter a harmonia da relação. Pois, como é um ser racional, e apresenta a máquina do pensar evoluída, é ele que pode criar meios extraordinários para direcionar a uma relação saudável.

Um dos pontos de maior destaque desta conclusão é a consciência de que o cão está ali não só para satisfazer o homem, mas também para ser satisfeito por este. Esse fato é algo relevante para a continuidade do bem estar do convívio entre o cão e o homem.

Por fim, é importante manter sempre em mente o papel do humano diante do animal de estimação. Que é o de um ser responsável pela relação harmoniosa com outro de outra espécie, ou, quem sabe, espécies.

 

Abaixo um link onde é possível entender um pouco o trabalho do psicólogo Éder no mundo cinófilo.

 

 

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